segunda-feira, 12 de abril de 2010

Dentro e Fora

Minha casa, meu mundo.
Quando portas e janelas se fecham ficamos nós, eu e o desconhecido, bem próximos.
Quase somos um.
Aqui dentro tudo é atemporal.
Pelas fretas entra o passado.
Lembranças difusas que insistem em se apegar.
Lá fora o presente deixa de ser e o futuro aqui dentro nunca acontece.

Márcia Régis
Natal, 15/8/09

domingo, 11 de abril de 2010

Meu

O que era nosso nunca foi realmente seu.
Só em mim existia.
Só a mim pertencia.
Portanto, não só antes, mas também agora, será para sempre meu.

Márcia Régis
Natal, 11/4/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ensaio - Uma Chance para Mudar a História

Sempre que sinto vontade de estar outra vez com ela me dirijo até lá. Gosto daquele lugar, ainda que para muitos seja sombrio e final, parece-me que ali encontro a tradução exata de um refúgio perfeito no presente para recordar o passado e pensar no futuro. Ali posso dividir minha saudade não apenas com ela mas também com espectadores silenciosos que são de fato pura recordação. Além do mais, se a emoção me dominar, não serei questionada por outros freqüentadores temporais como eu. Quem ali mora e os que, como eu, por ali passam são cúmplices dos mesmos sentimentos e não concorrem com o tempo.
Atravesso os grandes e trabalhados portões de ferro, percorro calmamente a extensão verde que se apresenta como um vale rodeado de discretos jardins e ladeado de ruas largas, impressionantemente limpas e silenciosas, e chego até onde ela esta. Ali há a quebra da comunicação prática estabelecida pela teoria, não se definem emissor e receptor, o meio terá sempre a definição abstrata dos sentimentos, a mensagem será sempre a temporal e é permitida a substituição dos signos pelo silencio absoluto dos sons e dos gestos. Ali há a inversão dos sentidos.
Então fecho os olhos para enxergar outra vez os nossos melhores momentos e silencio-me para dar início ao nosso diálogo. Volto sem problemas ao passado que me permitiu o início do que agora sou.
Estava terminando de rever todos os recados da minha aliada eletrônica.
Apesar de nunca me encontrar, ela sempre insistia em deixar o mesmo recado. Era um monologo, mas ela fazia parecer diferente, como se fizesse de conta que falava comigo.
Havia uma frase que muito me incomodava. Me parecia uma cobrança “quando for possível me faz uma visita”. Não entendia tanta cobrança. Nunca deixara de depositar mensalmente a mesma quantia e além do mais nunca passou nenhuma data importante sem uma pequena lembrança. Mesmo que fosse uma mensagem gravada.
Afinal encontrei uma oportunidade que coincidia com a proximidade de sua casa. Cumpriria com o meu principal compromisso e aproveitaria para vê-la. Certamente que seria rápido.
A porta como sempre estava aberta. Parecia me esperar. O tempo que me separava da última visita pareceu-me nada diante de tanta coisa familiar: o jardim, o cheiro da casa, os móveis. A única coisa que parecia fora do contexto era o silêncio.
Ela estava em silencio. Não percebeu a minha chegada. Sentada ali na cadeira sob a luz tênue do fim de tarde que entrava pela janela me fez lembrar um quadro antigo. Logo percebi que estava cercada de lembranças. Algumas espalhadas em seu colo. As mãos aproximava outras dos olhos já cansados, como se deseja-se avivar todos os detalhes em suas memória. Não consigo ouvir essa oração silenciosa que ela faz.
Senti ciúmes daquela devoção. Quem mereceria tanta atenção?
Enquanto buscava a palavra que traduzisse a idéia perfeita daquele sentimento incerto que insistia em faze-la refém, vi a língua pátria trazendo a resposta nos braços e deitando em seu peito a sua versão ímpar para aquela dor que a mim, diante de tamanha complacência, pareceu-me tão voluntária.
E sem apresentar resistência ela moldou o seu sentimento à aquela palavra suave: SAUDADE.
Mais uma vez concordei com o aparente. Parece-me o molde perfeito. A alegria das lembranças vividas e a tristeza de não poder tê-las mais. Aquela brincadeira com o ontem me precipitou para o futuro. Algum dia trocaremos de lugar? E quem estará como eu o sou agora? Me coloquei tão distante como mera espectadora e tão rapidamente agora me vi então mais próximo desta possibilidade que senti medo de um dia parecer tão só. Ela voltou o rosto para janela. Seu rosto brilhava. Reconheci-me naquela imagem que ela tanto admirava. Me envergonhei de ser tão egoísta e insensível.
E quando pareceu-me que a aquela palavra viva trazia todas as respostas, percebi a verdade numa resposta silenciosa, quente e cálida, descendo de seus olhos, realçando as marcas do seu rosto, tua saudade é a extensão exata de outra palavra: AMOR.
Essa expressão voluntária dedicada a alguém que se aproveita das coincidências dos compromissos para visitá-la, alguém que considera repetitivos os pedidos diários deixados em sua aliada eletrônica, alguém que considera depósitos mensais e apenas as datas comerciais importantes para dar-lhe atenção, alguém prefere uma mensagem mecânica à um breve alô cheio de sentimento, alguém que vê a saudade como um sentimento piegas e que só agora o traduz como a verdadeira expressão de quem ama. A saudade de quem ama é mais que o tempo e não menos que o teu olhar.
Agora ela não chora mais sozinha. Foi quebrado não apenas o silêncio.
Me vi tão miserável que temi assustá-la. Ali ela era a expressão fiel do amor e eu a imagem egoísta de quem só recebe.
Tentei em vão imitá-la, queria ser tão forte quanto ela. Ela que sempre me pareceu frágil, naquele dia se fez perceber fortaleza. Queria sair correndo dali. Era a última tentativa do meu orgulho. Não queria que me percebesse assim tão exposta. Mas não pude mais abafar o choro de arrependimento pelos anos de negligência agora tão evidentes. Durante todos esses anos, por amor, ela permitiu a inversão dos papeis. Sempre me deixou com a primeira e última palavra. Ela sabia o quão raro eram os nossos momentos, que sua disposição para ouvir me fazia submete-la a uma enxurrada de palavras, a discursos que mesmo sem entender ela bebia como informações preciosas. Mas naquele dia o meu discurso foi um choro convulsivo, as palavras tão freqüentes covardemente me deixaram. Queria a precisão das palavras, mas não foi necessário, pois entendi naquele momento que vírgulas e pontos formalizam sentimentos. E como não podia ser diferente ela se levantou daquele altar de recordações e me envolveu em seus braços como antes sempre o fizera. Suas mãos em meu rosto faziam a leitura das lágrimas e repetida vezes numa suavidade familiar dizia que me amava. O tempo se tornou nosso cúmplice e eternizou durante um tempo só nosso aqueles momentos. Quando enfim pareceu cessar as lágrimas, me percebi em seu colo. Sentei-me então ao seu lado e segurei aquelas mãos tão queridas e sempre estendidas para mim e pedi-lhe com atraso que me perdoa-se. Ela parecia sonhar, ria e chorava, me abraçava e me olhava como quem encontra alguém que a muito não se vê. Não ousei fazer-lhe promessas precipitadas, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, mas tinha a intenção sincera de ao menos recompensar tanto desperdício.
Ficamos horas naquela nossa eternidade. Agora todo o tempo era possível para estarmos juntos. Os dias e anos seguintes foram os mais especiais que poderíamos viver. Infelizmente o tempo desse reencontro foi menor que o do descaso. Nos nossos últimos momentos, enquanto ela dormia para sempre em meus braços, pude olhar para aquele rosto como se olhasse num espelho e, apesar da tristeza daquela inevitável despedida, vi-me finalmente em seus reflexos e não mais apenas na familiaridade dos traços.
Minhas prioridades mudaram. Reaprendi com ela que o mais importante é permutar e fazer crescer o amor recebemos. Hoje entendo que tempo não nos espera e não se recuperar, o máximo que podemos fazer é compensá-lo. Mas isso quando nos permitimos. E hoje quando escrevo sobre nós, penso no quanto a primeira parte de tudo isso pode estar acontecendo na estória da vida de outros e não posso evitar o cuidado de qual final se permitirá.
Me vi tão miserável que temi assustá-la. Ali ela era a expressão fiel do amor e eu a imagem egoísta de quem só recebe.
Tentei em vão imitá-la, queria ser tão forte quanto ela. Ela que sempre me pareceu frágil, naquele dia se fez perceber fortaleza. Queria sair correndo dali. Era a última tentativa do meu orgulho. Não queria que me percebesse assim tão exposta. Mas não pude mais abafar o choro de arrependimento pelos anos de negligência agora tão evidentes. Durante todos esses anos, por amor, ela permitiu a inversão dos papeis. Sempre me deixou com a primeira e última palavra. Ela sabia o quão raro eram os nossos momentos, que sua disposição para ouvir me fazia submete-la a uma enxurada de palavras, a discursos que mesmo sem entender ela bebia como informações preciosas. Mas naquele dia o meu discurso foi um choro convulsivo, as palavras tão freqüentes covardemente me deixaram. Queria a precisão das palavras, mas não foi necessário, pois entendi naquele momento que vírgulas e pontos formalizam sentimentos. E como não podia ser diferente ela se levantou daquele altar de recordações e me envolveu em seus braços como antes sempre o fizera. Suas mãos em meu rosto faziam a leitura das lágrimas e repetida vezes numa suavidade familiar dizia que me amava. O tempo se tornou nosso cúmplice e eternizou durante um tempo só nosso aqueles momentos. Quando enfim pareceu cessar as lágrimas, me percebi em seu colo. Sentei-me então ao seu lado e segurei aquelas mãos tão queridas e sempre estendidas para mim e pedi-lhe com atraso que me perdoa-se. Ela parecia sonhar, ria e chorava, me abraçava e me olhava como quem encontra alguém que a muito não se vê. Não ousei fazer-lhe promessas precipitadas, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, mas tinha a intenção sincera de ao menos recompensar tanto desperdício.
Ficamos horas naquela nossa eternidade. Agora todo o tempo era possível para estarmos juntos. Os dias e anos seguintes foram os mais especiais que poderíamos viver. Infelizmente o tempo desse reencontro foi menor que o do descaso. Nos nossos últimos momentos, enquanto ela dormia para sempre em meus braços, pude olhar para aquele rosto como se olhasse num espelho e, apesar da tristeza daquela inevitável despedida, vi-me finalmente em seus reflexos e não mais apenas na familiaridade dos traços.
Minhas prioridades mudaram. Reaprendi com ela que o mais importante é permutar e fazer crescer o amor que recebemos. Hoje entendo que tempo não nos espera e não se recuperar, o máximo que podemos fazer é compensá-lo. Mas isso quando nos permitimos. E hoje quando escrevo sobre nós, penso no quanto a primeira parte de tudo isso pode estar acontecendo na história da vida de outros e não posso evitar o cuidado de qual final se permitirá. Meu desejo é de que na reprise desta estória, os que fazem o meu papel se a percebam, antes destes momentos que hoje me são constantes, que nada nesta vida é mais importante e precioso do que aqueles que nos são próximos.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 2001

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Natal - A Cidade do Sol

Natal é conhecida como a Cidade do Sol e faz jus ao nome.
A proximidade da linha do Equador garante oficialmente temperaturas na média de 35º praticamente durante todo o ano.
Extra oficialmente é outra coisa.
Pode não ter – ainda - a comprovação científica, mas me arrisco em dizer que o sol incha a cabeça e amolece o juízo dos nativos.
A incidência solar aqui é de fato sem comparação e as cabeças idem . Vide a minha.
Aqui são muito comuns cenas dignas de muitas resenhas.
Faço antes um parêntese sobre coisas corriqueiras e possíveis de protagonizar por aqui ou em qualquer lugar.
Um exemplo comum são as filas.
Sempre que chegada a minha vez sou forçada ao exercício da paciência, pois é trivial o caixa eletrônico apresentar problemas ou mesmo o cartão magnético ou o operador do caixa sair para fazer algo que ninguém podia fazer no lugar dele; ou devotas de São Bento (Mulheres grávidas com uma criança no colo, outra na mão e outra dentro) surgirem com suas proles; ou o clube da terceira idade aparecer em peso, etc.
Bem, voltemos ao episodio de hoje.
Numa fila para usar o telefone público – claro que para variar quase chegada a minha vez – um rapaz ensandecido com o fone em punho batendo-o furiosamente contra a caixa do teclado e rasgando o português – que fique claro que falo da linguagem e não dos lusitanos.
Dizia ele num dialeto local uma seqüência de palavras que para o entendimento e respeito com todos é melhor omitir, pois requer a adição do vocabulário local e esse é um texto família.
No demais todos se olhando e criticando baixinho, quase em sussurros, o comportamento daquele moço.
Ninguém ousava dizer nada para que ele ouvisse.
Não reprovo o cuidado dos meus conterrâneos e companheiros de fila.
Afinal quem em sã consciência ousa interromper um nordestino com a bexiga taboca, bisonho, breado de cana, cabra de peia, aperreado e abufelado?
Só outro nordestino cuja sanidade e paciência são atributos raros, e também vítima do escaldante sol: Eu.
Então disse eu no nosso sotaque cantante sem medir as conseqüências e já me preparando para o balaio de gato que estava por se formar.
- Moço, com licença, antes de o senhor quebrar o orelhão posso, por favor, fazer minha ligação?
Ele parou de espancar o orelhão, olhou para baixo procurando de onde vinha a voz – sou baixinha em tamanho, mas grande em atrevimento – e pra surpresa de todos e minha também, ele foi para o lado e eu sem dar as costas pra ele – não estava doida – pude fazer a minha ligação.
O moço? Foi embora resmungando.
Não o vi mais depois disso.
Eu voltei pra casa me achando.
O orelhão continua lá. Inteiro e ainda funcionando.

Márcia Régis

Prentesão

Sei que o perfeito é ufano.
Sei que o imperfeito é humano.
Sei que o normal se espera.
Sei que o diferente atrai.
Sei que no desequilíbrio há esperança.
Sei que o comedimento apraz.
Sei o que é enlouquecer.
Sei o que é quase estar.
Sei muito bem como é ficar.
Sei como é não poder esquecer.
Sei de pronto os efeitos em lembrar.
Sei que não posso e nem quero ignorar.
Sei que o que foi não muda.
Sei que o que fica pode variar.
Sei que há certezas e dúvidas.
Sei que o amanhã sempre existirá.
Sei que de contínuo é bom questionar.
Sei que agora é o momento que não se deve evitar.
Sei dos meus medos e dos meus desejos.
Sei que sofrer faz crescer.
Sei que também faz chorar.
Sei rir dos dois - sofrer e crescer.
Sei o que quero e o que posso.
Sei que prefiro o que devo.
Sei que é melhor que vacilar.
Sei que vale arriscar.

Márcia Régis
Natal, 02/4/2010

Divino & Humano

Eu olho para o céu e vejo beleza nas formas irregulares.
De onde estou percebo a harmonia do contraste entre o humano e o divino.
Abaixo e vejo passos apressados, olhos materiais.
Em cima mãos estendidas aguardando a entrega e olhar paciente e cheio de amor.
Acima inspiração.
Em baixo há poesia derramada quando se percebe.
Cores e formas, pequenas diferenças entre pessoas tão iguais.
Em cima a visão de unidade, que nos percebe em nossas particularidades.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 24 / 11 / 2000

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Imparcialidade

Não existem meias verdades e nem mentiras necessárias.
A verdade será sempre absoluta.

Márcia Régis
Natal, 01/4/2010