terça-feira, 30 de março de 2010

Quase

Eu quase fui feliz.
Eu quase acreditei que quase fui.
Eu quase desisti.
Eu quase tornei isso possível.
E lá não estava só.
Havia muitas como eu.
Havia muitas de mim.
Transeuntes de mundos particulares, prisioneiras da alopatia, negligenciadas pelos que lhes deviam o melhor.
Loucas por liberdade, insanas por condição.
Dias roubados pelo torpor dos neurolépticos.
Memórias fragmentadas pela incompreensão dos fatos e dos atos.
Eu quase fico.
Eu quase não volto mais.
Eu quase fera.
Eu quase insana.
Eu quase era.
Eu quase humana.
Eu quase sou.

Márcia Régis
Natal, 30/3/2010

Intransigente

Não.
Eu não sou compreensiva.
Não tente me compreender.
Esta palavra não faz parte de mim faz tempo.
Não que eu tenha desistido em ser ou me tornar.
Nem tentei.
Simplesmente não sou.
Me incomoda não ser.
Porém não agora.
Não quero nem as falsas e mal aplicadas pausas das vírgulas.
Não quero ser contida.
Vou abusar dos verbos.
Quem não gostar que se faça surdo.

Rio, 15/3/2004

segunda-feira, 29 de março de 2010

Generosidade

Generosidade tem limites?
Penso (coisa de quem acha) que sim. Acredito que não.
E empatia é possível sempre? Qualquer que seja a situação?
Na teoria sim. Na prática nem sempre.
Todos esses questionamentos por causa dos inúmeros comentários sobre o infausto encontro do último sábado.
Uma amiga disse que devo ter provocado a situação – segundo ela eu tenho um jeito agressivo com os incautos homens e isso os intimida – minha surpresa foi saber que longe estou de encantar e perto do espanto.
Outra se dispôs solidária ao moço – me fez pensar que devo ser menos egoísta e, havendo uma próxima situação semelhante devo levar uma bolsa maior com itens de emergência, deixando de fora batom, máscara para os olhos, lenços umedecidos e qualquer coisa que seja para o meu exclusivo uso particular.
Já outra não consegue mais falar comigo sem ter uma crise de riso – Só confirmou o que já suspeitava. Ela nunca me levou mesmo a sério.
Ainda bem que são todas amigas queridas.
Serei então generosa (na medida) e empática (sem me confundir com compaixão). Vou relatar o encontro como se fosse eu, e não moço, a “borrar” o primeiro encontro.
Só não o farei literalmente, pois se assim fizer terei que me “expressar” como ele em sons e em quantidade de substâncias.
Em primeiro lugar sabendo do meu desarranjo gástrico cancelaria o encontro ou, se inevitável fosse, eu iria de fralda descartável. Mesmo sabendo que o resultado estético do volume da fralda tendesse a fazer da minha bunda – em tamanho – uma completa ignorância.
Em segundo lugar buscaria um lugar onde a música alta e ensurdecedora a fim de abafar os flatos. Quando ao cheiro faria cara de dissimulação.
Terceiro nem vou considerar as opções do cardápio. Estamos no nordeste e comida light aqui nem no nome. Vide buchada de bode, bobó de camarão e o fatídico escondidinho – que esta mais para revelador.
Quarto procuraria o lugar mais próximo possível do banheiro.
Quinto sentindo a inevitável tensão do momento, como uma pessoa de fé, recorreria aos céus: “Meu Deus segurai essa criatura de força descomunal que tenta sair de mim”.
Sexto, não funcionando a fé seria matemática, calcularia o percurso mais rápido para me aliviar e não faria escolha de banheiros.
Por fim, desapareceria e já em casa, no dia seguinte, telefonaria dizendo ter sido abduzida. Ficaria mais enigmático do que dizer que me desfiz em merda.
É muito mais honroso sumir assim que voltar para mesa e me despedir toda borrada.
Ah, também procuraria com urgência uma junta médica (gastroenterologista, nutricionistas, terapeutas, psicólogos, etc).
Queridas e tolerantes amigas me esforcei em ser magnânima e altruísta com o moço cagão. Agora tentem vocês fazer o mesmo comigo.

Final de estória...

Uma parte de mim quer parar.
Uma outra diz continue.
Uma parte de mim se pergunta pra quê?
Uma outra responde: pelo talvez.
E assim, em pedaços de mim, vivo sobrevivendo sob a navalha da dúvida.

Natal, 30/5/2008

Ele já haiva ido faz tempo.
Eu é que insistia em não aceitar a realidade.
Fiz tudo para que hoje não fosse apressado e que talvez nem acontecesse.
Fechei as portas e janelas.
Mas, esqueci que a luz entra pelas frestas.
Então o dia se fez claro e real.
Sem arrependimentos ou remorsos, deixando para trás todas as recordações, assim ele se foi encerrando anos de uma estória que parecia nossa.
E me aprisionando na solidão ele se fez livre.
Me ofuscando os olhos ele saiu com olhos cheios de sonhos.
Como quem se livra de um peso, como quem volta a respirar outra vez, sem olhar para trás, sem hesitação ele se foi.

Natal, 31/5/2008

Insanidade

É madrugada.
O silêncio e uma idéia fixa de desistir de tudo e uma vacilante e insistente necessidade de continuar acreditando.
Quem vencerá?
É madrugada.
É hora de repassar as cenas do teatro do dia que se fez hoje.
Tento me recompor, pois quando o sol voltar outra vez será mais uma vez reprise.
É madrugada.
É hora do reconhecimento do óbvio.
Pena que ainda me falte coragem prática para encerrar definitivamente este ato.
E num ato só, encerrar e cortar abrupta e rapidamente essa peça.
Reconheço a falência do meu amor não correspondido.
Reconheço a fragilidade prisioneira dos que dependem de mim.
Reconheço meu fracasso e impotência.
Mas, ainda assim não é xeque-mate.
É madrugada.
E quase tudo é silêncio, menos dentro de mim.
Sou covarde demais para deixar essa sobrevida.
Não penso mais no que deixei de viver, nem no que poderia ter sido, nem no que possa ser ou viver.
Penso no que ainda não sonhei.
Mas, para sonhar é preciso fechar os olhos e minha realidade de hoje não me permite o descanso.
Já não é mais madrugada.
Ela se foi e é dia outra vez.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 28/6/2008

Coisas Antigas - Indícios do fim

Parou a chuva.
Passou o tempo que podia ser nosso.
No chão o reflexo da água.
Em mim a decepção.
No tempo esperado revivi todas as expectativas.
Fragéis recordações, pois no retorno apenas a chuva

Rio, 15/3/2004

O ego masculino alimenta a dissimulação feminina.


As palavras não são subjetivas.
A fidelidade é prática e a traição é palpável.
O silêncio é a melhor hora para se ouvir.
Quando se conhece as letras é possível escrever na escuridão.
A dúvida incomoda muito mais que a certeza.

Natal, 04/3/2008


Essa inquietação que se traduz no pior dos instintos.
Medo de parar, de continuar, de permanecer, de mudar, de não ter, de não ser, do controle, de não te-lo, do tempo e da falta dele, da credibilidade e da ausência da fé.
Me alimento do que me consome.
O que é aparente - antes límpido, tranparente, forte e claro - agora é obscuro, fosco, franco e vulgar.
Diante do inconfundível trava-se uma guerra entre a razão e os sentidos.
O instito fomenta essa contenda.
E nessa batalha insana meu corpo responde em ausências de sono e de memória.
As palavras vão e vem, numa bricadeira que me encarcera, sem trazer respostas.

Natal, 06/3/2008


A pior de todas as prisões é a consciencia da liberdade. Quando nos damos conta do poder da escolha é que nos percebemos voluntariamente prisioneiros dos nossos medos.

Natal, 09/3/2008


No silêncio contido um vazio pleno, a escassez de palavras e olhos ressequidos.
Sentimentos sufocados.
No corpo uma intensa dor.
Na mente só apatia.

Natal, 07/4/2008


A realidade é uma farsa.
Só nos sonhos o que é impossível se faz real.
Não se pode viver só de sonhos.
Mas, quando se dorme é possível sobreviver deles.

Natal, 267/4/2008

Qual o seu tipo?

Que tipo de homem você gostaria de ter ao teu lado? A resposta é quase sempre fantasiosa.
Eu, como sempre exagerada, se sou para inventar ultrapasso o limite da fantasia. Gosto de homens raros. Quase impossíveis de existir. Homens fiéis e monogâmicos.

Recado

Sinto-me bem ao teu lado.
Mas, tua ausência e tuas inconstantes idas e vindas deixam claro que o que você me oferece, na prática, é muito menos do que pode me dá.
Gosto de inteiros.
A metade para mim é pouco e menos que isso é inaceitável.
Tuas explicações não esclarecem e nem justificam e nem mesmo podem ser entendidas como desculpas.
Aliás, desculpas viciam quem costuma pedir e deixam dúvidas para quem as recebe.
Há uma considerável diferença entre o que é sinceridade e a impossibilidade de esconder o óbvio. Hoje admito que você nunca esteve sozinho, porém tão acompanhado de você mesmo que não permite mais ninguém.

Tesão é vontade no ritmo do desejo.
De você quero isso e muito mais.

Coisas Antigas - Sentimentos atuais

Sou uma Mulher.
Sou forma, curvas e conteúdo.
Mas, ele só vê a forma, come curvas e disperdiça o conteúdo.

Sou uma Mulher.
Sou ritmo, música e poesia.
Mas, ele só segue o ritmo, não importa a música e ignora a poesia.

Sou uma Mulher.
Sou cores, perfume e segredos.
Mas, ele desgasta as cores, consome o perfume e me deixa nua.

Sou uma Mulher.
Me faço inteira.
Mas, ele me tem em pedaços...mude a poesia...me faça completa.

Márcia Medeiros*
Rio, 16/01/2001

*Ainda era a Sra. Medeiros...rs

As Escuras

Faz tempo que não saio para outro lugar que não seja o supermercado, a padaria ou a farmácia.
Na última quarta-feira (24/3) já bem tarde da noite o telefone toca.
Era uma amiga querida ligando para dizer que o primo do namorado dela queria me conhecer. E ela e a namorado, cheios de boa vontade, estavam intermediando um encontro.
É bom deixar claro que ele – o tal moço – se mostrou muito interessado em me conhecer depois que o primo – namorado da minha amiga – ter dito que eu não conhecia ninguém faz tempo e que a visão de eu “indo” era melhor que voltando.
Bem é verdade que faz tempo que não conheço ninguém do sexo oposto. Verbozinho capcioso esse tal de conhecer.
Enquanto ela ainda desfiava um rosário de bons motivos para que eu aceitasse o convite, eu não parava de pensava no que poderia acontecer.
Do moço ela só me adiantou que era mais jovem que eu – o tal moço tinha 31 anos – o que já era um presságio para que eu ficasse em casa. Mas, ela fez questão de enfatizar muitas vezes o quanto ele era responsável e cheio de boas intenções.
Depois de chegar aos 40 passei a questionar algumas verdades populares.
O tal dito que “cavalo dado não se olha os dentes” só funcionam se você quer apenas comer papa ou tomar líquidos.
Para mim ficou bem difícil olhar para um homem de 35 e distinguir um adulto, a maioria mais parecem adolescentes no cio.
Quanto às intenções do moço eu tinha certeza de que ele tinha todas. Principalmente depois de saber que ele gosta mais da mulher em verso (de costas) do que em prosa.
A pergunta que não parava de me fazer: Valeria mesmo sair de casa para um encontro assim?
Preconceitos a parte decidi que iria muito mais pela oportunidade de sair do que na intenção de conhecê-lo. Afinal, que mal poderia haver? (de vez enquanto eu costumo me enganar).
Sábado (27/3) noite do encontro. Minha amiga logo identificou o carro do namorado e disse que o carro que o seguia era do tal moço.
O segundo carro estava perigosamente inclinado para o lado esquerdo.
Quando o moço desceu do carro vi que não se tratava de problemas com os amortecedores.
Lembram do filme Caças Fantasmas? Do Monstro de Marshmallow? Não? Então pense no bonequinho cheio de dobras símbolo da Michelan.
Definitivamente aquele seria um encontro de peso.
Depois das apresentações de praxe seguimos para um restaurante num shopping aqui da Zona Norte.
À noite, coitada, era uma criança que deveria, assim como eu, ficar em casa e evitar as cenas que viriam.
Na entrada do restaurante e a caminho da mesa o moço se apropriou do cardápio.
Antes do pedido, fez questão de nos dizer sem rodeios que pela manhã teria tido um “desarranjo” intestinal – Na verdade ele disse mesmo dessentiria.
Bem, a nós coube “engolir” o constrangimento daquela informação desnecessária e o aconselhar que escolhesse com cuidado o que iria comer. Mas, ele levava a sério a expressão carpem die.
Depois de 20 minutos ouvindo ele dizer que o pedido estava demorando, enfim chegou o prato light: Duas porções médias – graças a DEUS – de escondidinho de carne de sol e camarão.
O glutão, digo o moço, devorou sem cerimônia a parte dele e ainda me ajudou com a minha e tudo isso acompanhado por 2 litros de refrigerante Diet.
Terminada refeição veio a parte lúdica da noite.
O moço começou a suar e a inclinar-se para os lados a fim de aliviar a pressão.
Já não suportando mais a pressão interna (flatos que não continham mais dentro dele) decidiu termina a expressão no banheiro.
Imagine um lutador de sumo com o cofrinho a mostra – Putz! cofrinho é eufemismo – andando como um gueixa em passos rápidos e apertados em direção ao banheiro. E isso tudo com direito a efeitos sonoros.
De nada adiantou a minha postura de esfinge. Todos os olhares dos demais estavam sobre nós.
Quando eu penso em me levantar e sair à francesa vem o moço já todo borrado em minha direção dizer que o banheiro do piso onde estávamos não comportou a obra de arte dele.
Uma funcionária do shopping vendo a cena e se acabando de rir – tem gente que rir das desgraças dos outros, nesse caso a minha – veio em nossa direção e eu pedi que indicasse outro banheiro.
Ela disse que outro banheiro só no primeiro piso. E lá foi o lutador de sumo, seguindo como uma gueixa, em procura de outro lugar para continuar se aliviando.
Atrás dele um rastilho de sons, cheiros e merda.
E eu lá alvo da gozação do demais.
Minha amiga e o namorado faziam coro junto aos gozadores. Afinal merda nos outros é piada.
Depois de tanta “expressão o cagão enfim resolveu ir embora.
Minha amiga e o namorado vieram me deixar em casa.
Já em casa e três horas de banhos depois fui refletir sobre os acontecimentos da noite e tentar extrair algo, que não fosse o cheiro da merda e o som dos flatos, de toda aquela situação.
Conclui que:
· Não se faça de surda quando todos os seus sentidos gritarem com você.
· Nunca ignore os sinais.
· Fuja enquanto for possível e quando não for de um jeito de escapar.
· Os amigos podem achar que estar sozinha é uma merda e na melhor das intenções te empurrarem para ela.
· Evite o quanto puder um encontro as escuras. Mas, se não puder evitar leve lanterna, papel higiênico e dinheiro suficiente para voltar de taxi.
Depois dessa voltei a minha segura reclusão.
Melhor só do que acompanhada numa cagada.

Márcia Régis