quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Alguém

Quero alguém que não seja só desencontros.
Que entre junto comigo e que não esteja sempre saindo quando eu chego.
Que não seja espelho ou reflexo.
Que fale quando eu me calar.
Que dê seqüência nas minhas frases.
Que me ouça sem que seja preciso palavras.
Que não seja minha metade, mas minha extensão.
Que enxugue minhas lágrimas antes destas acontecerem.
Quero alguém com quem eu possa dividir meus defeitos tão freqüentes e multiplicar minhas qualidades raras.
Alguém que converta meus erros em acertos e que os faça evidente.
Alguém real que seja toque e forma e não apenas intenção ou imaginação.

Márcia Régis

Solidão

Hoje apenas olho pela janela.
Tudo parou o que motiva, o que inspira e o que revela.
Onde me vejo denuncio o que sinto, não há reflexos e não há respostas.
Há apenas a ausência nua do brilho nos olhos.
Haverá propósito no destino? Quem escreveu esta estória? Porque esse final se nem houve um início completo? Porque me apresentar a beleza em essência e tirá-la assim sem que a tocasse? Devo me contentar com essa efêmera apresentação da felicidade? Porque antes de ir, não me ensinastes a olhar como tu olhas e a sentir como tu sentes?
Não teria me entregado assim se soubesse da rapidez desse encontro. Teria me dado muito mais.
Não posso, não quero e não vou apagar teus vestígios. São marcas indeléveis que eu não posso negar. Fazem agora parte do que me fizestes ser.
Não sou eu que faço as exigências, é a tua presença em mim.
Acreditei que cedendo o controle das emoções me chegaria até você. Por várias vezes me permiti e me senti tão próxima, mas era apenas o meu desejo que se completava em você.
Hoje sei e sinto que nunca mais serei como antes.
Percebo com ansiedade e pesar que estava só na intenção de unidade e que jamais seremos nós.

Márcia Régis

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Divagar

Detesto desencontrar dissimular dissuadir distorcer desconfiar depreciar discriminar desiludir descrer desencantar desistir
Dúvidas debalde desapontam desvirtuam danificam disfarçam desencadeiam desorientam degredam
Desordem dificulta desespera desnorteia desequilibra deflagra dor
Depressão definha desestimula deforma destrói
Despeito desmesura divide distancia
Decorro diante disso demonstrando desacordo
Desfaço deviso desminto destino defectível dito determinado delineado duradouro
Discordo desprezo desnudo descarto desatino discórdia desunião desmedida
Denuncio desacato desamparo detração disparidade deturpação
Decido defiro decifro delibero desafio
Declaro defender diferenças distintas
Deduzo decoro disparo delego devir
Diserto dito dialogo descente
Declino discurso difuso dubitável
Deveras durante desabafo desacerbo detalho desfecho
DEUS distribui dádivas desvenda desvela distingui desembaraça direciona desafios diários
Descanso deleite durante devoção dedicada

Márcia Régis
(Natal, 10/6/2010)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Desejo

O frescor da manhã suavizou a intensidade da noite, mas desejo é sentimento que se apazigua com mistura de cheiros e suor, em movimentos que evidenciam uma harmonia frenética, que faz explodir numa sintonia de sons.
A ausência de ritmos na noite inquieta ainda mais o corpo.
Tento ocultar o óbvio, mas o que o explícito não expressa os olhos denunciam.
Fechar os olhos não justifica. Faz lembrar ontem e querer muito mais agora.
O que fazer do desejo? Procurar você não basta. É preciso agora.
O desejo permanece...cresce sem que seja possível ceder...o corpo pede e a razão cala.

Márcia Régis

domingo, 6 de junho de 2010

Alegoria

Aviso até aqui avança avassaladora agonia
Aproveito avalio assimilo aprofundo adivinho adiando admito atalho alternativo ainda amanhã
Adianto atento atesto atenho amadureço afirmo
Atraso atormenta atrapalha apreende atropela atravessa atrofia
Afora afugenta avaria assusta apressa altera aturdia
Avanço atrai avidez atributo atrativo assemelha atitude aturada apurada atual arriscada arrojada audaz
Apenas aumenta aqui ausência afetiva
Ali absolutos absurdos acontecem abscodem abrutecem abreviam
Amor alquimia absinto abstrato abriga abranda atenua apega afaga atiça aquece abrasa apaixona alvoroça apropria
Apresenta alternando ampla analogia
Antes aprova aprecia acode anima abriga aquieta abençoa adita aqueda acalma
Após apela absorve aponta aborrece atordoa abala acua acusa abomina afasta aparta abandona abate
Atualmente advertida atribulada admoestada a afoita alma amiúde aquiesce anuncia abatida abalada agradecida ajustada
Acredita agora apta alegre afiada alerta acordada aqueda acalma
Absolvida aproveita anuncia aliviada adomada aferida aprendizagem

Márcia Régis
(Natal, 06/06/2010)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Descomedimentos

O amor é cego.
A paixão desatino.
A raiva contida faz adoecer.
O ódio é insano.
O rancor consome.
A vingança não satisfaz.
A falta de fé limita.
O excesso fanatiza.
A ignorância é omissa.
Muito conhecimento entristece.

Márcia Régis
(Natal, 03/06/2010)

Medo

Medo de ir
Medo de ficar
Medo de parar
Medo de continuar
Medo de insistir
Medo de desistir
Medo de encarar
Medo de evitar
Medo de enfrentar
Medo de fugir
Medo de sentir
Medo de impedir
Medo de deixar
Medo de conhecer
Medo de ignorar
Medo de falar
Medo de calar
Medo de perguntar
Medo de responder
Medo de perder
Medo de achar
Medo de fechar os olhos
Medo de olhar e ver

Márcia Régis
Natal, 02/06/2010

domingo, 30 de maio de 2010

Oportunidade

Vou aproveitar esse momento onde não há interrupções, onde o olhar não questiona, onde a eloqüência das palavras é nula, onde os gestos não confundem, e onde meu desejo pode ser iludido pela razão.
Não antes ou depois, não ontem ou amanhã, mas agora tentarei dizer parte do tudo o que não poderei dizer estando com você.
Esse espaço de tempo que nossas realidades determinam entre nós sentencia a certeza de que a intensidade do que queremos é tangível, mas tão temporal quanto a idéia de ter você sempre ao meu lado.
Não o quero como um motivo para pensar com saudades, pois assim você será sempre um sonho que coincidirá com uma realidade furtiva.
Não poderei ser inteira entregando apenas meu corpo.
Me perdoe o egoísmo, mas não posso aceitar apenas partes do quero inteiro.

Márcia Régis
Natal, 30/5/2010

Quero

Quero o calor das cores.
Quero cores suaves.
Quero o silêncio da emoção.
Quero musicar o que sinto.
Quero o desencontro dos verbos.
Quero palavras precisas.
Quero o delírio dos amantes.
Quero a perfeição dos sentidos.
Quero me embriagar de prazer.
Quero a serenidade do depois.
Quero a dúvida de quem busca.
Quero a certeza de quem ama.
Quero a exatidão frágil do hoje.
Quero a esperança insegura do amanhã.
Quero a liberdade de ser.
Quero a unidade do nós.
Quero a timidez do primeiro encontro.
Quero a ousadia da primeira vez.
Quero o início de tudo.
Quero a eternidade do amanhã e do agora.
Quero sonhar acordada.
Quero viver realizada.
Quero sentir tua falta.
Quero ter a tua presença.
Quero e no tudo que eu quero me encontro em você e então me perco outra vez, pois o que quero só existe dentro de mim...faça-me conhecer...seja real.

Márcia Régis
Natal, 30/5/2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tempo

Tempo tolo tenho tido tanto
Tempo tendo tento tudo
Tempo tórrido tenaz tabífico
Tempo tácito tolerante taxado temerário talante
Tempo tira tudo tinindo
Tempo terreno tangível tapeia
Tempo tardio tórpido tolhe
Tempo transe teatro tenaz
Tempo telúrico tece teia teimosia
Tempo temeroso tenebroso trêmulo
Tempo tenso teso tentador
Tempo traquejo terminal trágico
Tempo testemunha tardia
Tempo trama trajetória traiçoeira
Tempo transcreve transcende transgride transforma
Tempo...

Márcia
Natal, 26/05/10

Limbo

A madrugada pode ser tépida, cálida, sem variação de cor e também amiúde.
Mas há também uma rotina cheia de diferenças.
É o intervalo de cessar os erros, pensar no que ainda pode ser certo e o que não pode deixar de ser.
É onde o emudecer pode soar como um grito e o que parece oculto tornam-se evidente e manifesto.
É onde mais se reluta contra o que inquieta e furtivamente rouba a paz.
É a tela multifacetada dos insones onde é possível desconstruir realidades e desenhar sonhos.

Márcia Régis
Natal, 26/05/10

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Óbvio

O final de tudo tem sempre três etapas: início, meio e redundância.

Márcia Régis
Natal, 21/5/10

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Coisas antigas...explicam o agora

No meu silêncio há vozes que gritam verdades que me recuso a ouvir.
Paraliso os gestos carregados de emoção, mas ainda assim é grande a agitação que me domina.
Tento fugir focando o vazio, mas falho, pois o que fito são as cenas fortes que não deveriam ser fatos.
Não me atrevo à pretensão do tudo, mas até quando me bastará ter nada?
Nunca a proximidade me pareceu tão distante.
Parece-me que a tão desejada unidade existe apenas no afastamento.
A companhia da solidão consome um tempo que não possuo e divide as fantasias que deveriam ser conjugadas.
Hoje os sonhos são como vultos num nevoeiro do outono.
Que venha o sol e dissipe a bruma que os envolve e traga a esperança que os faça reais.

Márcia Régis
Rio, 05/04/2005

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Dentro e Fora

Minha casa, meu mundo.
Quando portas e janelas se fecham ficamos nós, eu e o desconhecido, bem próximos.
Quase somos um.
Aqui dentro tudo é atemporal.
Pelas fretas entra o passado.
Lembranças difusas que insistem em se apegar.
Lá fora o presente deixa de ser e o futuro aqui dentro nunca acontece.

Márcia Régis
Natal, 15/8/09

domingo, 11 de abril de 2010

Meu

O que era nosso nunca foi realmente seu.
Só em mim existia.
Só a mim pertencia.
Portanto, não só antes, mas também agora, será para sempre meu.

Márcia Régis
Natal, 11/4/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ensaio - Uma Chance para Mudar a História

Sempre que sinto vontade de estar outra vez com ela me dirijo até lá. Gosto daquele lugar, ainda que para muitos seja sombrio e final, parece-me que ali encontro a tradução exata de um refúgio perfeito no presente para recordar o passado e pensar no futuro. Ali posso dividir minha saudade não apenas com ela mas também com espectadores silenciosos que são de fato pura recordação. Além do mais, se a emoção me dominar, não serei questionada por outros freqüentadores temporais como eu. Quem ali mora e os que, como eu, por ali passam são cúmplices dos mesmos sentimentos e não concorrem com o tempo.
Atravesso os grandes e trabalhados portões de ferro, percorro calmamente a extensão verde que se apresenta como um vale rodeado de discretos jardins e ladeado de ruas largas, impressionantemente limpas e silenciosas, e chego até onde ela esta. Ali há a quebra da comunicação prática estabelecida pela teoria, não se definem emissor e receptor, o meio terá sempre a definição abstrata dos sentimentos, a mensagem será sempre a temporal e é permitida a substituição dos signos pelo silencio absoluto dos sons e dos gestos. Ali há a inversão dos sentidos.
Então fecho os olhos para enxergar outra vez os nossos melhores momentos e silencio-me para dar início ao nosso diálogo. Volto sem problemas ao passado que me permitiu o início do que agora sou.
Estava terminando de rever todos os recados da minha aliada eletrônica.
Apesar de nunca me encontrar, ela sempre insistia em deixar o mesmo recado. Era um monologo, mas ela fazia parecer diferente, como se fizesse de conta que falava comigo.
Havia uma frase que muito me incomodava. Me parecia uma cobrança “quando for possível me faz uma visita”. Não entendia tanta cobrança. Nunca deixara de depositar mensalmente a mesma quantia e além do mais nunca passou nenhuma data importante sem uma pequena lembrança. Mesmo que fosse uma mensagem gravada.
Afinal encontrei uma oportunidade que coincidia com a proximidade de sua casa. Cumpriria com o meu principal compromisso e aproveitaria para vê-la. Certamente que seria rápido.
A porta como sempre estava aberta. Parecia me esperar. O tempo que me separava da última visita pareceu-me nada diante de tanta coisa familiar: o jardim, o cheiro da casa, os móveis. A única coisa que parecia fora do contexto era o silêncio.
Ela estava em silencio. Não percebeu a minha chegada. Sentada ali na cadeira sob a luz tênue do fim de tarde que entrava pela janela me fez lembrar um quadro antigo. Logo percebi que estava cercada de lembranças. Algumas espalhadas em seu colo. As mãos aproximava outras dos olhos já cansados, como se deseja-se avivar todos os detalhes em suas memória. Não consigo ouvir essa oração silenciosa que ela faz.
Senti ciúmes daquela devoção. Quem mereceria tanta atenção?
Enquanto buscava a palavra que traduzisse a idéia perfeita daquele sentimento incerto que insistia em faze-la refém, vi a língua pátria trazendo a resposta nos braços e deitando em seu peito a sua versão ímpar para aquela dor que a mim, diante de tamanha complacência, pareceu-me tão voluntária.
E sem apresentar resistência ela moldou o seu sentimento à aquela palavra suave: SAUDADE.
Mais uma vez concordei com o aparente. Parece-me o molde perfeito. A alegria das lembranças vividas e a tristeza de não poder tê-las mais. Aquela brincadeira com o ontem me precipitou para o futuro. Algum dia trocaremos de lugar? E quem estará como eu o sou agora? Me coloquei tão distante como mera espectadora e tão rapidamente agora me vi então mais próximo desta possibilidade que senti medo de um dia parecer tão só. Ela voltou o rosto para janela. Seu rosto brilhava. Reconheci-me naquela imagem que ela tanto admirava. Me envergonhei de ser tão egoísta e insensível.
E quando pareceu-me que a aquela palavra viva trazia todas as respostas, percebi a verdade numa resposta silenciosa, quente e cálida, descendo de seus olhos, realçando as marcas do seu rosto, tua saudade é a extensão exata de outra palavra: AMOR.
Essa expressão voluntária dedicada a alguém que se aproveita das coincidências dos compromissos para visitá-la, alguém que considera repetitivos os pedidos diários deixados em sua aliada eletrônica, alguém que considera depósitos mensais e apenas as datas comerciais importantes para dar-lhe atenção, alguém prefere uma mensagem mecânica à um breve alô cheio de sentimento, alguém que vê a saudade como um sentimento piegas e que só agora o traduz como a verdadeira expressão de quem ama. A saudade de quem ama é mais que o tempo e não menos que o teu olhar.
Agora ela não chora mais sozinha. Foi quebrado não apenas o silêncio.
Me vi tão miserável que temi assustá-la. Ali ela era a expressão fiel do amor e eu a imagem egoísta de quem só recebe.
Tentei em vão imitá-la, queria ser tão forte quanto ela. Ela que sempre me pareceu frágil, naquele dia se fez perceber fortaleza. Queria sair correndo dali. Era a última tentativa do meu orgulho. Não queria que me percebesse assim tão exposta. Mas não pude mais abafar o choro de arrependimento pelos anos de negligência agora tão evidentes. Durante todos esses anos, por amor, ela permitiu a inversão dos papeis. Sempre me deixou com a primeira e última palavra. Ela sabia o quão raro eram os nossos momentos, que sua disposição para ouvir me fazia submete-la a uma enxurrada de palavras, a discursos que mesmo sem entender ela bebia como informações preciosas. Mas naquele dia o meu discurso foi um choro convulsivo, as palavras tão freqüentes covardemente me deixaram. Queria a precisão das palavras, mas não foi necessário, pois entendi naquele momento que vírgulas e pontos formalizam sentimentos. E como não podia ser diferente ela se levantou daquele altar de recordações e me envolveu em seus braços como antes sempre o fizera. Suas mãos em meu rosto faziam a leitura das lágrimas e repetida vezes numa suavidade familiar dizia que me amava. O tempo se tornou nosso cúmplice e eternizou durante um tempo só nosso aqueles momentos. Quando enfim pareceu cessar as lágrimas, me percebi em seu colo. Sentei-me então ao seu lado e segurei aquelas mãos tão queridas e sempre estendidas para mim e pedi-lhe com atraso que me perdoa-se. Ela parecia sonhar, ria e chorava, me abraçava e me olhava como quem encontra alguém que a muito não se vê. Não ousei fazer-lhe promessas precipitadas, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, mas tinha a intenção sincera de ao menos recompensar tanto desperdício.
Ficamos horas naquela nossa eternidade. Agora todo o tempo era possível para estarmos juntos. Os dias e anos seguintes foram os mais especiais que poderíamos viver. Infelizmente o tempo desse reencontro foi menor que o do descaso. Nos nossos últimos momentos, enquanto ela dormia para sempre em meus braços, pude olhar para aquele rosto como se olhasse num espelho e, apesar da tristeza daquela inevitável despedida, vi-me finalmente em seus reflexos e não mais apenas na familiaridade dos traços.
Minhas prioridades mudaram. Reaprendi com ela que o mais importante é permutar e fazer crescer o amor recebemos. Hoje entendo que tempo não nos espera e não se recuperar, o máximo que podemos fazer é compensá-lo. Mas isso quando nos permitimos. E hoje quando escrevo sobre nós, penso no quanto a primeira parte de tudo isso pode estar acontecendo na estória da vida de outros e não posso evitar o cuidado de qual final se permitirá.
Me vi tão miserável que temi assustá-la. Ali ela era a expressão fiel do amor e eu a imagem egoísta de quem só recebe.
Tentei em vão imitá-la, queria ser tão forte quanto ela. Ela que sempre me pareceu frágil, naquele dia se fez perceber fortaleza. Queria sair correndo dali. Era a última tentativa do meu orgulho. Não queria que me percebesse assim tão exposta. Mas não pude mais abafar o choro de arrependimento pelos anos de negligência agora tão evidentes. Durante todos esses anos, por amor, ela permitiu a inversão dos papeis. Sempre me deixou com a primeira e última palavra. Ela sabia o quão raro eram os nossos momentos, que sua disposição para ouvir me fazia submete-la a uma enxurada de palavras, a discursos que mesmo sem entender ela bebia como informações preciosas. Mas naquele dia o meu discurso foi um choro convulsivo, as palavras tão freqüentes covardemente me deixaram. Queria a precisão das palavras, mas não foi necessário, pois entendi naquele momento que vírgulas e pontos formalizam sentimentos. E como não podia ser diferente ela se levantou daquele altar de recordações e me envolveu em seus braços como antes sempre o fizera. Suas mãos em meu rosto faziam a leitura das lágrimas e repetida vezes numa suavidade familiar dizia que me amava. O tempo se tornou nosso cúmplice e eternizou durante um tempo só nosso aqueles momentos. Quando enfim pareceu cessar as lágrimas, me percebi em seu colo. Sentei-me então ao seu lado e segurei aquelas mãos tão queridas e sempre estendidas para mim e pedi-lhe com atraso que me perdoa-se. Ela parecia sonhar, ria e chorava, me abraçava e me olhava como quem encontra alguém que a muito não se vê. Não ousei fazer-lhe promessas precipitadas, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, mas tinha a intenção sincera de ao menos recompensar tanto desperdício.
Ficamos horas naquela nossa eternidade. Agora todo o tempo era possível para estarmos juntos. Os dias e anos seguintes foram os mais especiais que poderíamos viver. Infelizmente o tempo desse reencontro foi menor que o do descaso. Nos nossos últimos momentos, enquanto ela dormia para sempre em meus braços, pude olhar para aquele rosto como se olhasse num espelho e, apesar da tristeza daquela inevitável despedida, vi-me finalmente em seus reflexos e não mais apenas na familiaridade dos traços.
Minhas prioridades mudaram. Reaprendi com ela que o mais importante é permutar e fazer crescer o amor que recebemos. Hoje entendo que tempo não nos espera e não se recuperar, o máximo que podemos fazer é compensá-lo. Mas isso quando nos permitimos. E hoje quando escrevo sobre nós, penso no quanto a primeira parte de tudo isso pode estar acontecendo na história da vida de outros e não posso evitar o cuidado de qual final se permitirá. Meu desejo é de que na reprise desta estória, os que fazem o meu papel se a percebam, antes destes momentos que hoje me são constantes, que nada nesta vida é mais importante e precioso do que aqueles que nos são próximos.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 2001

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Natal - A Cidade do Sol

Natal é conhecida como a Cidade do Sol e faz jus ao nome.
A proximidade da linha do Equador garante oficialmente temperaturas na média de 35º praticamente durante todo o ano.
Extra oficialmente é outra coisa.
Pode não ter – ainda - a comprovação científica, mas me arrisco em dizer que o sol incha a cabeça e amolece o juízo dos nativos.
A incidência solar aqui é de fato sem comparação e as cabeças idem . Vide a minha.
Aqui são muito comuns cenas dignas de muitas resenhas.
Faço antes um parêntese sobre coisas corriqueiras e possíveis de protagonizar por aqui ou em qualquer lugar.
Um exemplo comum são as filas.
Sempre que chegada a minha vez sou forçada ao exercício da paciência, pois é trivial o caixa eletrônico apresentar problemas ou mesmo o cartão magnético ou o operador do caixa sair para fazer algo que ninguém podia fazer no lugar dele; ou devotas de São Bento (Mulheres grávidas com uma criança no colo, outra na mão e outra dentro) surgirem com suas proles; ou o clube da terceira idade aparecer em peso, etc.
Bem, voltemos ao episodio de hoje.
Numa fila para usar o telefone público – claro que para variar quase chegada a minha vez – um rapaz ensandecido com o fone em punho batendo-o furiosamente contra a caixa do teclado e rasgando o português – que fique claro que falo da linguagem e não dos lusitanos.
Dizia ele num dialeto local uma seqüência de palavras que para o entendimento e respeito com todos é melhor omitir, pois requer a adição do vocabulário local e esse é um texto família.
No demais todos se olhando e criticando baixinho, quase em sussurros, o comportamento daquele moço.
Ninguém ousava dizer nada para que ele ouvisse.
Não reprovo o cuidado dos meus conterrâneos e companheiros de fila.
Afinal quem em sã consciência ousa interromper um nordestino com a bexiga taboca, bisonho, breado de cana, cabra de peia, aperreado e abufelado?
Só outro nordestino cuja sanidade e paciência são atributos raros, e também vítima do escaldante sol: Eu.
Então disse eu no nosso sotaque cantante sem medir as conseqüências e já me preparando para o balaio de gato que estava por se formar.
- Moço, com licença, antes de o senhor quebrar o orelhão posso, por favor, fazer minha ligação?
Ele parou de espancar o orelhão, olhou para baixo procurando de onde vinha a voz – sou baixinha em tamanho, mas grande em atrevimento – e pra surpresa de todos e minha também, ele foi para o lado e eu sem dar as costas pra ele – não estava doida – pude fazer a minha ligação.
O moço? Foi embora resmungando.
Não o vi mais depois disso.
Eu voltei pra casa me achando.
O orelhão continua lá. Inteiro e ainda funcionando.

Márcia Régis

Prentesão

Sei que o perfeito é ufano.
Sei que o imperfeito é humano.
Sei que o normal se espera.
Sei que o diferente atrai.
Sei que no desequilíbrio há esperança.
Sei que o comedimento apraz.
Sei o que é enlouquecer.
Sei o que é quase estar.
Sei muito bem como é ficar.
Sei como é não poder esquecer.
Sei de pronto os efeitos em lembrar.
Sei que não posso e nem quero ignorar.
Sei que o que foi não muda.
Sei que o que fica pode variar.
Sei que há certezas e dúvidas.
Sei que o amanhã sempre existirá.
Sei que de contínuo é bom questionar.
Sei que agora é o momento que não se deve evitar.
Sei dos meus medos e dos meus desejos.
Sei que sofrer faz crescer.
Sei que também faz chorar.
Sei rir dos dois - sofrer e crescer.
Sei o que quero e o que posso.
Sei que prefiro o que devo.
Sei que é melhor que vacilar.
Sei que vale arriscar.

Márcia Régis
Natal, 02/4/2010

Divino & Humano

Eu olho para o céu e vejo beleza nas formas irregulares.
De onde estou percebo a harmonia do contraste entre o humano e o divino.
Abaixo e vejo passos apressados, olhos materiais.
Em cima mãos estendidas aguardando a entrega e olhar paciente e cheio de amor.
Acima inspiração.
Em baixo há poesia derramada quando se percebe.
Cores e formas, pequenas diferenças entre pessoas tão iguais.
Em cima a visão de unidade, que nos percebe em nossas particularidades.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 24 / 11 / 2000

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Imparcialidade

Não existem meias verdades e nem mentiras necessárias.
A verdade será sempre absoluta.

Márcia Régis
Natal, 01/4/2010

terça-feira, 30 de março de 2010

Quase

Eu quase fui feliz.
Eu quase acreditei que quase fui.
Eu quase desisti.
Eu quase tornei isso possível.
E lá não estava só.
Havia muitas como eu.
Havia muitas de mim.
Transeuntes de mundos particulares, prisioneiras da alopatia, negligenciadas pelos que lhes deviam o melhor.
Loucas por liberdade, insanas por condição.
Dias roubados pelo torpor dos neurolépticos.
Memórias fragmentadas pela incompreensão dos fatos e dos atos.
Eu quase fico.
Eu quase não volto mais.
Eu quase fera.
Eu quase insana.
Eu quase era.
Eu quase humana.
Eu quase sou.

Márcia Régis
Natal, 30/3/2010

Intransigente

Não.
Eu não sou compreensiva.
Não tente me compreender.
Esta palavra não faz parte de mim faz tempo.
Não que eu tenha desistido em ser ou me tornar.
Nem tentei.
Simplesmente não sou.
Me incomoda não ser.
Porém não agora.
Não quero nem as falsas e mal aplicadas pausas das vírgulas.
Não quero ser contida.
Vou abusar dos verbos.
Quem não gostar que se faça surdo.

Rio, 15/3/2004

segunda-feira, 29 de março de 2010

Generosidade

Generosidade tem limites?
Penso (coisa de quem acha) que sim. Acredito que não.
E empatia é possível sempre? Qualquer que seja a situação?
Na teoria sim. Na prática nem sempre.
Todos esses questionamentos por causa dos inúmeros comentários sobre o infausto encontro do último sábado.
Uma amiga disse que devo ter provocado a situação – segundo ela eu tenho um jeito agressivo com os incautos homens e isso os intimida – minha surpresa foi saber que longe estou de encantar e perto do espanto.
Outra se dispôs solidária ao moço – me fez pensar que devo ser menos egoísta e, havendo uma próxima situação semelhante devo levar uma bolsa maior com itens de emergência, deixando de fora batom, máscara para os olhos, lenços umedecidos e qualquer coisa que seja para o meu exclusivo uso particular.
Já outra não consegue mais falar comigo sem ter uma crise de riso – Só confirmou o que já suspeitava. Ela nunca me levou mesmo a sério.
Ainda bem que são todas amigas queridas.
Serei então generosa (na medida) e empática (sem me confundir com compaixão). Vou relatar o encontro como se fosse eu, e não moço, a “borrar” o primeiro encontro.
Só não o farei literalmente, pois se assim fizer terei que me “expressar” como ele em sons e em quantidade de substâncias.
Em primeiro lugar sabendo do meu desarranjo gástrico cancelaria o encontro ou, se inevitável fosse, eu iria de fralda descartável. Mesmo sabendo que o resultado estético do volume da fralda tendesse a fazer da minha bunda – em tamanho – uma completa ignorância.
Em segundo lugar buscaria um lugar onde a música alta e ensurdecedora a fim de abafar os flatos. Quando ao cheiro faria cara de dissimulação.
Terceiro nem vou considerar as opções do cardápio. Estamos no nordeste e comida light aqui nem no nome. Vide buchada de bode, bobó de camarão e o fatídico escondidinho – que esta mais para revelador.
Quarto procuraria o lugar mais próximo possível do banheiro.
Quinto sentindo a inevitável tensão do momento, como uma pessoa de fé, recorreria aos céus: “Meu Deus segurai essa criatura de força descomunal que tenta sair de mim”.
Sexto, não funcionando a fé seria matemática, calcularia o percurso mais rápido para me aliviar e não faria escolha de banheiros.
Por fim, desapareceria e já em casa, no dia seguinte, telefonaria dizendo ter sido abduzida. Ficaria mais enigmático do que dizer que me desfiz em merda.
É muito mais honroso sumir assim que voltar para mesa e me despedir toda borrada.
Ah, também procuraria com urgência uma junta médica (gastroenterologista, nutricionistas, terapeutas, psicólogos, etc).
Queridas e tolerantes amigas me esforcei em ser magnânima e altruísta com o moço cagão. Agora tentem vocês fazer o mesmo comigo.

Final de estória...

Uma parte de mim quer parar.
Uma outra diz continue.
Uma parte de mim se pergunta pra quê?
Uma outra responde: pelo talvez.
E assim, em pedaços de mim, vivo sobrevivendo sob a navalha da dúvida.

Natal, 30/5/2008

Ele já haiva ido faz tempo.
Eu é que insistia em não aceitar a realidade.
Fiz tudo para que hoje não fosse apressado e que talvez nem acontecesse.
Fechei as portas e janelas.
Mas, esqueci que a luz entra pelas frestas.
Então o dia se fez claro e real.
Sem arrependimentos ou remorsos, deixando para trás todas as recordações, assim ele se foi encerrando anos de uma estória que parecia nossa.
E me aprisionando na solidão ele se fez livre.
Me ofuscando os olhos ele saiu com olhos cheios de sonhos.
Como quem se livra de um peso, como quem volta a respirar outra vez, sem olhar para trás, sem hesitação ele se foi.

Natal, 31/5/2008

Insanidade

É madrugada.
O silêncio e uma idéia fixa de desistir de tudo e uma vacilante e insistente necessidade de continuar acreditando.
Quem vencerá?
É madrugada.
É hora de repassar as cenas do teatro do dia que se fez hoje.
Tento me recompor, pois quando o sol voltar outra vez será mais uma vez reprise.
É madrugada.
É hora do reconhecimento do óbvio.
Pena que ainda me falte coragem prática para encerrar definitivamente este ato.
E num ato só, encerrar e cortar abrupta e rapidamente essa peça.
Reconheço a falência do meu amor não correspondido.
Reconheço a fragilidade prisioneira dos que dependem de mim.
Reconheço meu fracasso e impotência.
Mas, ainda assim não é xeque-mate.
É madrugada.
E quase tudo é silêncio, menos dentro de mim.
Sou covarde demais para deixar essa sobrevida.
Não penso mais no que deixei de viver, nem no que poderia ter sido, nem no que possa ser ou viver.
Penso no que ainda não sonhei.
Mas, para sonhar é preciso fechar os olhos e minha realidade de hoje não me permite o descanso.
Já não é mais madrugada.
Ela se foi e é dia outra vez.

Márcia Régis
Rio de Janeiro, 28/6/2008

Coisas Antigas - Indícios do fim

Parou a chuva.
Passou o tempo que podia ser nosso.
No chão o reflexo da água.
Em mim a decepção.
No tempo esperado revivi todas as expectativas.
Fragéis recordações, pois no retorno apenas a chuva

Rio, 15/3/2004

O ego masculino alimenta a dissimulação feminina.


As palavras não são subjetivas.
A fidelidade é prática e a traição é palpável.
O silêncio é a melhor hora para se ouvir.
Quando se conhece as letras é possível escrever na escuridão.
A dúvida incomoda muito mais que a certeza.

Natal, 04/3/2008


Essa inquietação que se traduz no pior dos instintos.
Medo de parar, de continuar, de permanecer, de mudar, de não ter, de não ser, do controle, de não te-lo, do tempo e da falta dele, da credibilidade e da ausência da fé.
Me alimento do que me consome.
O que é aparente - antes límpido, tranparente, forte e claro - agora é obscuro, fosco, franco e vulgar.
Diante do inconfundível trava-se uma guerra entre a razão e os sentidos.
O instito fomenta essa contenda.
E nessa batalha insana meu corpo responde em ausências de sono e de memória.
As palavras vão e vem, numa bricadeira que me encarcera, sem trazer respostas.

Natal, 06/3/2008


A pior de todas as prisões é a consciencia da liberdade. Quando nos damos conta do poder da escolha é que nos percebemos voluntariamente prisioneiros dos nossos medos.

Natal, 09/3/2008


No silêncio contido um vazio pleno, a escassez de palavras e olhos ressequidos.
Sentimentos sufocados.
No corpo uma intensa dor.
Na mente só apatia.

Natal, 07/4/2008


A realidade é uma farsa.
Só nos sonhos o que é impossível se faz real.
Não se pode viver só de sonhos.
Mas, quando se dorme é possível sobreviver deles.

Natal, 267/4/2008

Qual o seu tipo?

Que tipo de homem você gostaria de ter ao teu lado? A resposta é quase sempre fantasiosa.
Eu, como sempre exagerada, se sou para inventar ultrapasso o limite da fantasia. Gosto de homens raros. Quase impossíveis de existir. Homens fiéis e monogâmicos.

Recado

Sinto-me bem ao teu lado.
Mas, tua ausência e tuas inconstantes idas e vindas deixam claro que o que você me oferece, na prática, é muito menos do que pode me dá.
Gosto de inteiros.
A metade para mim é pouco e menos que isso é inaceitável.
Tuas explicações não esclarecem e nem justificam e nem mesmo podem ser entendidas como desculpas.
Aliás, desculpas viciam quem costuma pedir e deixam dúvidas para quem as recebe.
Há uma considerável diferença entre o que é sinceridade e a impossibilidade de esconder o óbvio. Hoje admito que você nunca esteve sozinho, porém tão acompanhado de você mesmo que não permite mais ninguém.

Tesão é vontade no ritmo do desejo.
De você quero isso e muito mais.

Coisas Antigas - Sentimentos atuais

Sou uma Mulher.
Sou forma, curvas e conteúdo.
Mas, ele só vê a forma, come curvas e disperdiça o conteúdo.

Sou uma Mulher.
Sou ritmo, música e poesia.
Mas, ele só segue o ritmo, não importa a música e ignora a poesia.

Sou uma Mulher.
Sou cores, perfume e segredos.
Mas, ele desgasta as cores, consome o perfume e me deixa nua.

Sou uma Mulher.
Me faço inteira.
Mas, ele me tem em pedaços...mude a poesia...me faça completa.

Márcia Medeiros*
Rio, 16/01/2001

*Ainda era a Sra. Medeiros...rs

As Escuras

Faz tempo que não saio para outro lugar que não seja o supermercado, a padaria ou a farmácia.
Na última quarta-feira (24/3) já bem tarde da noite o telefone toca.
Era uma amiga querida ligando para dizer que o primo do namorado dela queria me conhecer. E ela e a namorado, cheios de boa vontade, estavam intermediando um encontro.
É bom deixar claro que ele – o tal moço – se mostrou muito interessado em me conhecer depois que o primo – namorado da minha amiga – ter dito que eu não conhecia ninguém faz tempo e que a visão de eu “indo” era melhor que voltando.
Bem é verdade que faz tempo que não conheço ninguém do sexo oposto. Verbozinho capcioso esse tal de conhecer.
Enquanto ela ainda desfiava um rosário de bons motivos para que eu aceitasse o convite, eu não parava de pensava no que poderia acontecer.
Do moço ela só me adiantou que era mais jovem que eu – o tal moço tinha 31 anos – o que já era um presságio para que eu ficasse em casa. Mas, ela fez questão de enfatizar muitas vezes o quanto ele era responsável e cheio de boas intenções.
Depois de chegar aos 40 passei a questionar algumas verdades populares.
O tal dito que “cavalo dado não se olha os dentes” só funcionam se você quer apenas comer papa ou tomar líquidos.
Para mim ficou bem difícil olhar para um homem de 35 e distinguir um adulto, a maioria mais parecem adolescentes no cio.
Quanto às intenções do moço eu tinha certeza de que ele tinha todas. Principalmente depois de saber que ele gosta mais da mulher em verso (de costas) do que em prosa.
A pergunta que não parava de me fazer: Valeria mesmo sair de casa para um encontro assim?
Preconceitos a parte decidi que iria muito mais pela oportunidade de sair do que na intenção de conhecê-lo. Afinal, que mal poderia haver? (de vez enquanto eu costumo me enganar).
Sábado (27/3) noite do encontro. Minha amiga logo identificou o carro do namorado e disse que o carro que o seguia era do tal moço.
O segundo carro estava perigosamente inclinado para o lado esquerdo.
Quando o moço desceu do carro vi que não se tratava de problemas com os amortecedores.
Lembram do filme Caças Fantasmas? Do Monstro de Marshmallow? Não? Então pense no bonequinho cheio de dobras símbolo da Michelan.
Definitivamente aquele seria um encontro de peso.
Depois das apresentações de praxe seguimos para um restaurante num shopping aqui da Zona Norte.
À noite, coitada, era uma criança que deveria, assim como eu, ficar em casa e evitar as cenas que viriam.
Na entrada do restaurante e a caminho da mesa o moço se apropriou do cardápio.
Antes do pedido, fez questão de nos dizer sem rodeios que pela manhã teria tido um “desarranjo” intestinal – Na verdade ele disse mesmo dessentiria.
Bem, a nós coube “engolir” o constrangimento daquela informação desnecessária e o aconselhar que escolhesse com cuidado o que iria comer. Mas, ele levava a sério a expressão carpem die.
Depois de 20 minutos ouvindo ele dizer que o pedido estava demorando, enfim chegou o prato light: Duas porções médias – graças a DEUS – de escondidinho de carne de sol e camarão.
O glutão, digo o moço, devorou sem cerimônia a parte dele e ainda me ajudou com a minha e tudo isso acompanhado por 2 litros de refrigerante Diet.
Terminada refeição veio a parte lúdica da noite.
O moço começou a suar e a inclinar-se para os lados a fim de aliviar a pressão.
Já não suportando mais a pressão interna (flatos que não continham mais dentro dele) decidiu termina a expressão no banheiro.
Imagine um lutador de sumo com o cofrinho a mostra – Putz! cofrinho é eufemismo – andando como um gueixa em passos rápidos e apertados em direção ao banheiro. E isso tudo com direito a efeitos sonoros.
De nada adiantou a minha postura de esfinge. Todos os olhares dos demais estavam sobre nós.
Quando eu penso em me levantar e sair à francesa vem o moço já todo borrado em minha direção dizer que o banheiro do piso onde estávamos não comportou a obra de arte dele.
Uma funcionária do shopping vendo a cena e se acabando de rir – tem gente que rir das desgraças dos outros, nesse caso a minha – veio em nossa direção e eu pedi que indicasse outro banheiro.
Ela disse que outro banheiro só no primeiro piso. E lá foi o lutador de sumo, seguindo como uma gueixa, em procura de outro lugar para continuar se aliviando.
Atrás dele um rastilho de sons, cheiros e merda.
E eu lá alvo da gozação do demais.
Minha amiga e o namorado faziam coro junto aos gozadores. Afinal merda nos outros é piada.
Depois de tanta “expressão o cagão enfim resolveu ir embora.
Minha amiga e o namorado vieram me deixar em casa.
Já em casa e três horas de banhos depois fui refletir sobre os acontecimentos da noite e tentar extrair algo, que não fosse o cheiro da merda e o som dos flatos, de toda aquela situação.
Conclui que:
· Não se faça de surda quando todos os seus sentidos gritarem com você.
· Nunca ignore os sinais.
· Fuja enquanto for possível e quando não for de um jeito de escapar.
· Os amigos podem achar que estar sozinha é uma merda e na melhor das intenções te empurrarem para ela.
· Evite o quanto puder um encontro as escuras. Mas, se não puder evitar leve lanterna, papel higiênico e dinheiro suficiente para voltar de taxi.
Depois dessa voltei a minha segura reclusão.
Melhor só do que acompanhada numa cagada.

Márcia Régis